"O tempo é valiosíssimo, mas não custa nada, podemos fazer o que quisermos com ele, menos possui-lo, podemos gasta-lo, mas não podemos guarda-lo. Quando o perdemos não podemos recupera-lo, "passou e pronto.!".

07.10.10

O corredor descalço


Avesso ao tênis, Abebe Bikila, bicampeão olímpico, foi o primeiro negro africano a conquistar o ouro nas Olimpíadas

 

Por Nanna Pretto

Abebe Bikila nasceu na Etiópia, em 7 de agosto de 1932, no dia da maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Filho de agricultores e guarda-costas do Imperador etíope Atse Haile Selassié, o gosto pela corrida veio dos treinos militares, descalço, pelas montanhas da província de Mout. Aos 28 anos, Bikila completou, sob a luz da lua e com os pés no chão, os 42 km da maratona nas Olimpíadas de Roma, em 1960, tornando-se o primeiro africano negro a ganhar uma medalha de ouro na história das Olimpíadas. E ele faria mais: venceria também em Tóquio, quatro anos depois, atingindo o bicampeonato na mais nobre prova olímpica. Feito ainda não igualado até hoje.

No final dos anos 60, um acidente tirou dele a capacidade de andar, mas não a grandeza olímpica. Passou disputar provas para atletas em cadeira de rodas.

De guarda-costas a herói nacional
Durante a infância, Bikila seguiu a tradição das famílias etíopes, frequentando a escola e como pastor de rebanho. Aos 20 anos foi designado guarda e, dois anos depois, casou-se com Yewibdar Giorghis, com quem teve quatro filhos. A decisão de seguir no atletismo veio quando o então guarda-costas do imperador assistia ao desfile dos atletas etíopes que participaram dos Jogos Olímpicos de Melbourne. Ao olhar as jaquetas esportivas que os atletas vestiam, com o nome “Etiópia” escrito nas costas, Bikila questionou quem seriam aquelas pessoas. Ao saber que eram atletas que representaram o país nos Jogos, ele decidiu que faria parte, em breve, daquele seleto grupo.

Em um campeonato nacional das forças armadas, Bikila, então com 24 anos, começava a escrever uma parte da história do atletismo internacional. O herói da época era o fundista Wami Biratu, detentor do recorde nacional dos 5.000 metros e dos 10 mil metros, e favorito na competição. Durante a maratona, uma multidão lotava o estádio esperando ver Biratu vencer. Após alguns quilômetros de prova, o locutor anunciou aos presentes no estádio que um jovem –e desconhecido– atleta estava na frente. Com uma tranquila vantagem, Bikila cruzou a linha de chegada para comoção geral dos espectadores. E ainda quebrou as marcas históricas nos 5.000 metros e 10 mil metros, antes pertencentes a Biratu. Com o impressionante resultado, o atleta estava qualificado para a olimpíada de Roma. Finalmente Bikila vestiria a tão sonhada jaqueta esportiva dos atletas etíopes.

A vontade de vencer justamente em Roma ia além das pistas de corrida. Seria uma resposta à invasão italiana ocorrida na Etiópia 30 anos antes. Assim, em uma decisão em conjunto com o técnico Onni Niskanen, Bikila –com os pés no chão– daria o sprint final um quilômetro antes da linha de chegada. Até passar o obelisco de Axum –monumento roubado da Etiópia pela tropa italiana e colocado em Roma– Bikila disputava a liderança com o marroquino Rhadi Ben Abdesselem. A partir dali, com uma surpreendente arrancada, o etíope abriu 200 metros à frente do segundo colocado. Era a conquista da primeira medalha de ouro. E, de quebra, o tempo recorde na modalidade, com 2h15min16s.

Questionado sobre o gosto de correr descalço, Bikila afirmou: “Eu quero que o mundo saiba que o meu país, Etiópia, vai sempre ganhar com determinação e heroísmo.” O reconhecimento veio também do então imperador Hailé Selassié que, como prêmio ao desempenho de Bikila, lhe deu de presente um carro, um apartamento e uma pensão vitalícia. O respeito pelo guarda-costas era tanto que em uma rebelião ocorrida no palácio do imperador, enquanto todos os guardas foram assassinados, Selassié interveio pedindo que Bikila fosse poupado.

O então consagrado herói recebia diversos convites para disputar provas. Mas Bikila era seletivo quanto à participação em competições e correu apenas cinco maratonas entre as Olimpíadas de Roma e Tóquio. Ganhou quatro delas.

Depois de deter o recorde na maratona e ser o primeiro negro africano a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos, o desejo de bikila era conquistar outro ouro para a Etiópia, o que o consagraria como o único atleta a vencer duas maratonas consecutivas em Jogos Olímpicos.

Seis semanas antes dos Jogos de Tóquio, em 1964, no entanto, Bikila sentiu-se mal com uma crise de apendicite e teve que ser operado. Mas a recepção que o atleta teve no Japão e a vontade de competir fizeram Bikila se recuperar rápida e inexplicavelmente. Acompanhado dos colegas Mamo Wolde e Demssie Wolde, Bikila retornou aos treinos regulares após alguns dias na capital japonesa. Além do excepcional desempenho na maratona, da forma como se recuperou da cirurgia em tão pouco tempo, as acrobacias dele ao cruzar a linha de chegada foram imagens que marcaram aqueles Jogos. E Bikila não só conseguiu o bicampeonato, como ainda cravou um novo recorde para maratona, com 2h12min11s.

Em 1968, nos Jogos do México, o etíope de pés descalços tentou nova arrancada no asfalto. Mas, com a saúde comprometida, parou nos primeiros 15 quilômetros. Na carreira, foram mais de 26 importantes maratonas pelo mundo.

Paraplégico, não abandonou o esporte
Ainda naquele ano, já de volta à Etiópia, sofreu um acidente de carro na cidade de Sheno. Paralisado da cintura para baixo, Bikila tentou tratamentos, por nove meses. Mesmo na cadeira de rodas, o espírito competitivo e o desejo de destacar a bandeira da Etiópia impulsionaram Bikila a participar de diversos torneios para atletas deficientes físicos.

Em 1970, ele participou de trenó de uma prova de 25 km de cross-country na Noruega e conquistou a medalha de ouro. No mesmo torneio, Bikila ainda ganhou uma prova similar, de 10 km, e recebeu uma placa de homenagem.

Em 25 outubro de 1973, a ilustre vida do corredor de pés descalços chegou ao fim com uma hemorragia cerebral. O herói etíope foi enterrado na catedral de St. Joseph, na presença de uma legião de fãs e do então imperador Atse Haile Selassié.

Uma lenda quase esquecida

Em 1996, a filha de Abebe Bikila, Tsige Abebe, escreveu “Triumph and Tragedy: a History of Abebe Bikila and his Marathon Career”. Publicado em inglês, é a única referência impressa sobre o atleta etíope. Infelizmente poucas cópias foram distribuídas no mundo e, fora da África, é quase impossível adquirir um exemplar.

Na lista de discussão do site www.mediaethiopia.com fãs e conterrâneos comentam a influência do corredor na vida dos adolescentes etíopes. “A história de Bikila vai além do fato de ele correr descalço. Não existe uma única escola, neste país de 75 milhões de habitantes que não conheça o nome Abebe Bikila e o que ele representou”, comenta um internauta que se identifica como Selam.

Quem fez história na Etiópia

Mamo Wolde (1931-2002): Após Bikila ter abandonado a maratona da olimpíada do México, Wolde representou a Etiópia na competição ultrapassando os favoritos e liderando a prova a partir do km 33. Na carreira, o atleta participou de 62 competições internacionais.

Miruts Yifter (1944): Ficou conhecido pela mudança de estratégia nos 200 metros finais, com um surpreendente sprint que deixava para trás muitos corredores, o que lhe rendeu o apelido de “o transformador”. Nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, Yifter levou duas medalhas de ouro (5.000 e 10 mil m) dando continuidade ao legado de Bikila.

Belayneh Dinsamo (1965): Ganhou fama internacional ao registrar recorde mundial na maratona de Roterdã, na Holanda, em 17 de abril de 1988. A marca histórica de 2h06min50s só foi quebrada após dez anos.

Derartu Tulu (1969): Corredora etíope que ficou famosa ao vencer os 10 mil nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992, consagrando-se como a primeira mulher africana a levar o ouro.

Haile Gebrselassié (1973): Inspirou-se em Bikila para entrar no mundo do atletismo. Nos 10 mil metros das Olimpíadas de Atlanta, gebrselassié ficou atrás do queniano Paul Tergat até a última volta, quando ultrapassou o rival, conquistando o ouro e cravando o recorde de 27min07s04. A segunda medalha de ouro veio nos 10 mil metros nas Olimpíadas de Sydney. Com a marca de 27min18s20 o atleta desbancou, novamente, Paul Tergat.

:: Identidade:
Nome: Abebe Bikila
Nascimento: 7 de agosto de 1932
Morte: 25 de outubro de 1973
Cidade natal: Jato (Etiópia)
Olimpíadas:
Roma, 1960
Tóquio, 1964
México, 1968

Medalhas:
Ouro em Roma com o tempo de 2h15min16s.
Ouro em Tóquio com o tempo de 2h12min11s.

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publicado por Zé às 12:22

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